A minha planta voltou ao Fundão e ainda não deu flor. Só caules esguios e folhas que dançam.

Depois da manhã de sexta feira, percebi que quero centralizar o meu projeto apenas numa zona da serra, que compreende aproximadamente sete árvores. Foi com essas que senti uma maior aproximação e foi também nesse espaço que me senti mais confortável para me fotografar.
Todas têm uma função. Três delas são as que partilham comigo o espaço mais profundo e que vou fotografando mais obsessivamente. As outras três são os suportes para a minha máquina fotográfica, para a câmara de filmar e para o meu telemóvel. Eu movo-me por entre todas e volto constantemente à máquina fotográfica para preparar o novo disparo e ligar o temporizador. A última árvore é a mais frágil. Sinto que tem frio e visto-lhe o meu casaco amarelo, que é demasiado quente para o exercício de me fotografar. Sinto que ela precisa mais dele do que eu ali.

Na manhã de sábado voltei à serra para repetir os mesmos procedimentos e o mesmo exercício. Tudo mudou um pouco, porque houve uma pausa. Percebi, passado quase uma hora, que, para além de me relacionar com elas, também gostava de perceber o que é ser árvore. Foi aí que parei de fotografar e comecei a fazer alguns filmes, que não penso como filmes, mas sim como curtos estudos de performances, em que tentava assemelhar-me a elas. Senti a brisa que me fez baloiçar, o vento que me fez tremer. Estiquei-me o mais que pude. Tentei trepar pelos seus troncos. Usei ramos como extensões dos meus braços, demasiado pequenos em comparação com os braços delas. Caí e tentei erguer-me do chão como uma árvore. Olhei para o céu e pensei se é para o céu que elas passam o tempo a olhar. Ou se para todas as direções ao mesmo tempo.

As árvores – é nelas que centro o meu pensamento agora e a minha ação.

Apesar de ter podido escolher muitos outros seres ou elementos como objetos de estudo, são estes que, neste momento, se fazem sentir mais presentes em mim, por serem os objetos que eu personifico, nos quais eu me projeto e que partilham comigo todas as sensações melancólicas e azuis do tempo e do nosso espaço. Porque, neste momento, existe um espaço só nosso, que criei para estar a sós com elas. Ambas queremos – a vertigem do azul. Esse é o nosso espaço melancólico – interior, mas comum entre nós.

E quando cheguei ao Fundão pela primeira vez, foram essas árvores melancólicas que eu senti encontrar na serra. Não só na serra, também no meio das pessoas e da cidade. Mas foram essas primeiras que falaram mais comigo.
Talvez por me ter sentido sozinha no meio delas e ter achado que também elas precisavam de companhia.

Para além deste ser um trabalho sobre mim, de tratar a auto representação, o tempo, o espaço da serra e das árvores, é um projeto sobre o melancólico e sobre o processo de criação. Ainda mais pelo facto de estar inserido numa residência, todo esse processo passa a ser mais valorizado e importante, por ter de haver sempre um regresso, uma continuidade e novamente um momento de aparente pausa, antes do novo regresso.

No fundo, tanto esse tempo como o das árvores têm os seus ciclos e eu tento inserir-me em ambos, para criar o meu.

Nota Biográfica . Carolina Lino

Carolina Lino nasceu em 1996, em Lisboa. Licenciou-se em Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, em 2018. Especializou-se em Cerâmica, pela Escola António Arroio, em 2014. Frequentou o programa Erasmus na Akademie der Bildenden Künste em Munique, na Alemanha, em 2017. Participou no VI Curso de Auto-Edição da Oficina do Cego, entre 2017 e 2018, do qual resultou a sua primeira publicação – Confessionário.

Atualmente frequenta a Pós-Graduação em Discursos da Fotografia Contemporânea, na FBAUL (desde 2018).

Participa em exposições coletivas desde 2016, entre Portugal e a Alemanha, das quais se destacam Details sind immer vulgär, AdBK, Munique, 2017; Sehstück, Galerie im Alten Rathaus, Prien am Chiemsee, 2017; Performance Massive Konformität, Städtisches Atelierhaus am Domagkpark, Munique, 2017; Art’E M’últipla, Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa, 2016; 1ª Edição do Prémio Paula Rego, Casa das Histórias, Cascais, 2016.

Participou nas Residências Artísticas: Projeto de Investigação e Criação Artística Ruínas, Associação Luzlinar, Fundão (desde 2018); Residência de Pintura Klasse Doberauer, Chiemsee, Alemanha, 2017.