O tempo do lugar

As surpresas estão ocultas, períodos indefiníveis. Conhecem-se as estações mas não se conhece o dia em que a flor de um sabugueiro começa a brotar. O tempo desvela o lugar ao ser, constantemente, o que implica, se assim for a nossa intenção, desocultar tudo o que é ocultado na natureza. Um musgo no outono mostra-se mais verde e vivo do que no verão, consegue preencher uma floresta inteira. Aqui entro no tempo das coisas, na força da vida. Conhecer uma árvore implica conhecer-lhe as estações. Um carvalho, de um outono ao outono seguinte transforma-se por completo.

Marco Pestana

Dois Lugares, Um 

Encontramo-nos na intersecção de dois momentos da prática artística – entre processo e obra. Dada a natureza de uma residência de investigação e criação artística, é amplo o
tempo de vivência, com as pessoas e com os lugares.

É aqui que me deparo com arremessos íntimos, aquilo que não vemos enquanto obra, mas que vai acontecendo dentro e fora de nós – falo dos cadernos, dos diários, das folhas soltas que vamos sempre guardando – de todos os objectos que nos acompanham e que nunca me parecem ser algo a expor. São objectos sensíveis, de poucas ou muitas páginas, com conteúdos muitas vezes perecíveis – um desenho a vinho, a mancha da seiva de uma folha de esteva, o registo de uma conversa com um pinheiro. No fundo, são retratos de espaços, são a nossa relação com um lugar e com os seus ciclos.

Aquilo que consideramos Obra – uma tela esticada, uma escultura num plinto, ou uma folha exposta isoladamente – para o artista, pode não ser, por vezes, suficiente. Existe todo um processo – um percurso, um espaço, um tempo diferente do tempo da obra, anterior à sua concretização, e que, muitas vezes, não é visto.

Marco Pestana e Carolina Lino.

Templo

O templo é um qualquer lugar em que definimos o seu perímetro, e nos entregamos em pleno. Lugar circunscrito de entrega e contemplação, templo enquanto lugar íntimo exterior. Lugar de delimitação imaginária e intransponível, onde as barreiras sou eu quem as define sendo as mesmas maleáveis, como uma gota que cai num lago, cada gota é uma dádiva que me faz redefinir constantemente o meu templo, a minha entrega. O epicentro sou eu e a minha consciência. Existem templos do tamanho da palma da mão, outros do tamanho da floresta, o ser define o seu templo, a partir de onde começa a entrega.
Compreendo o templo não como um sítio onde coloco a coisa para contemplar, mas sim como uma delimitação de um espaço que em si já contém a coisa a contemplar, através da vida e da abertura dá-se este fenómeno que é a contemplação, a coisa que se insere sou eu enquanto ser externo.

Feital, abril 2019
Marco Pestana

Permanência e anulação do corpo

Reconheço a exigência que é permanecer neste corpo alvo de conspirações da vida animal, e é desta forma que o tempo é necessário e o diálogo igual, só assim cessa o efeito que o nosso corpo tem no lugar, pelo tempo e o diálogo, um estar apenas, trata-se de um deixar-vir-a-ser. Estar imóvel como um granito adormecido no meio de um carvalhal.
Imobilidade do corpo, tempo e espaço, o comportamento que me permite observar uma quase essência do lugar sem mim, comigo lá.
A conspiração cessa, a ameaça igual, não existo para a vida enquanto estou lá, a vida acontece a minha frente, eu, imóvel, suspenso num êxtase fugaz e contínuo. Imobilidade suspensa. Barroco leve. Silêncio enraizado. Olhar aguçado.

De alguma forma é criada uma relação com o lugar que é íntima, através desta relação apercebo-me das rotinas maleáveis da natureza, a cadência dos acontecimentos,  aleatórios, perceptíveis e imperceptíveis. Tudo vive. É aqui que se revela a importância da imersão do corpo no espaço, o comportamento e a disponibilidade-abertura.

Visitar as árvores e descobrir-lhes os nomes.

Reúno-me com o todo, com os sons dos disparos dos caçadores ao longe, com os granitos que dormem recostados uns nos outros. O silêncio e o ruído percorrem o espaço. Esta reunião é diálogo, intervenção e também consentimento e compreensão.

Visitar a natureza, visitar as árvores e descobrir-lhes os nomes.  Conhecer o chão em que se multiplica o musgo e saber que há uns meses o mesmo não era tão verde e húmido. Visitar é querer reunir, dialogar e estar.

Proximidade-Cumplicidade-Integração

Tudo está já ali, à espera. Pela primeira vez interiorizei o que era um carvalho-negral (Quercus Pyrenaica) ou um castanheiro (Castanea Sativa).

Querer conhecer é aceitar o que existe. A interiorização é também abertura.

Trato de encontrar uma forma de partilhar à comunidade, o que é partilhado comigo seja pela visita que faço às coisas seja pelo encontro e descoberta com indivíduos que refletem o mesmo interesse.

Este conhecimento alargou-se noutros lugares por onde passei, e pelas pessoas que conheci.

Notei um vale onde predomina a exploração agrícola do território inclusive a exploração das indústrias madeireiras (de Pinho e Eucalipto) com forte impacto no meio ambiente e na própria paisagem resultantes destas políticas no território.

Hei de explorar melhor esta paisagem e este solo, acredito não se tratar de um território unicamente explorado, mas sim um território que ainda tem voz, que nos quer mostrar um futuro, possibilidades. As coisas retêm em si conhecimento.

Marco Pestana
Lisboa, 04 de março de 2019

 

Nota biográfica . Marco Pestana

Marco Pestana nasceu em 1993, no Funchal. Licenciou-se em Escultura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2018. Actualmente frequenta o mestrado em Arte e Multimédia pela FBAUL. Trabalha desde 2019 com a Associação Luzlinar, onde coordena acções de reflorestação e atividades culturais no Feital, Trancoso.

Participou em Residências de Investigação e criação artística promovidas no âmbito do Projecto Pontes pela Associação Luzlinar, no Fundão, Castelo Branco e Feital, 2018-2020.

Das exposições colectivas nas quais participou destacam-se:”Traça” no espaço Útero, Lisboa. Portugal, 2019 -” Dois lugares, um” no Espaço Pontes, Fundão. Portugal, 2019 – “Singular Pace” na ZetGallery, Braga. Portugal, 2018 – “Marco + André” na Galeria da AE FBAUL, Lisboa. Portugal, 2018.